Salmo 23: Meu Pastor não usa gravata, mas me faz sentir importante

“Como o pastor vai adiante das ovelhas, enfrentando primeiro o perigo do caminho, assim faz Jesus com Seu povo. ‘E, quando tira para fora as Suas ovelhas, vai adiante delas.’ João 10:4. O caminho para o Céu é consagrado pelas pegadas do Salvador. A vereda pode ser íngreme e acidentada, mas Jesus por ela passou; Seus pés calcaram os cruéis espinhos, a fim de tornar mais fácil o trilho para nós. Todo fardo que somos chamados a suportar, levou-o Ele próprio.” – O Desejado de Todas as Nações, pág. 480.

Ao longo dos séculos, nenhum outro texto bíblico tem proporcionado tranqüilidade, coragem, ânimo e esperança a tantas pessoas quanto o Salmo 23. Suas palavras são as mais conhecidas e amadas dos livros do Antigo Testamento.

Infelizmente, porém, parte de sua importante mensagem está oculta aos olhos da maioria, porque nele são usadas figuras com as quais o homem moderno, em geral, não está relacionado. Mas este artigo foi preparado para ajudar seus leitores a compreenderem melhor a letra desse antigo cântico sacro dos hebreus.

O Testemunho de Davi

Muitos pensam que o caráter amoroso de Deus é apresentado somente no Novo Testamento. Porém, de modo especial, o Salmo 23 contradiz completamente essa idéia, negando-a. Nele o salmista descreve a bondade divina, firmado em sua experiência pessoal. Diz ele, no primeiro verso: “O Senhor é o meu pastor: nada me faltará.”

1. Deus é como um pastor. As ovelhas são criaturas indefesas, não têm meios físicos para se defenderem de um animal feroz; por isso, o pastor fica constantemente alerta para protegê-las. E não tendo senso de direção, elas necessitam que o pastor caminhe à frente delas, chamando-as, ao movimentar-se o rebanho de um lugar para outro. É o pastor quem lhes provê água e pasto apropriado. Ele está sempre de plantão, atento ao bem-estar de seus animais, examinando-os freqüentemente para verificar se estão todos bem ou se há algum doente.

As vezes, ovelhas se separam do rebanho e não encontram o caminho do aprisco; também caem em covas, das quais não conseguem sair; ou deitam-se de costas, com as patas para cima, e, se estão muito gordas, não conseguem pôr-se de pé outra vez. Nessas ocasiões, se o pastor não as procura e salva, tornam-se presas fáceis dos predadores. Por tudo isso, estabelece-se um forte laço de afeição e companheirismo entre ele e suas ovelhas.

Davi comparou Deus a um de ovelhas, porque, sem dúvida, este é para elas o que Deus é para Seus filhos – protetor, guia, provedor, médico, salvador e amigo.

2. Deus é o meu pastor. Afirmar “o Senhor é o meu pastor” revela que, além de saber que Deus cuida de Suas criaturas como um pastor faz com suas ovelhas, Davi sabia que desfrutava pessoalmente do cuidado de Deus. Ele conhecia a Deus experimentalmente, e estava consciente de que o Criador Se interessava individualmente por sua pessoa.

Lamentavelmente, porém, na atualidade, embora muitos conheçam “o salmo do pastor”, a grande maioria desconhece o Pastor do salmo! Contudo, hoje, como naquele tempo, todos nós temos esse privilégio à nossa disposição. Davi sugere em outro salmo de sua autoria: “Oh! provai, e vede que o Senhor é bom; bem-aventurado o homem que nEle se refugia.” Salmo 34:8.

3. Deus é tudo que eu preciso. Ao dizer “o Senhor é o meu pastor: nada me faltará”, Davi também expressava sua convicção de que unicamente Deus pode proporcionar o que o ser humano necessita para ser feliz:, e que sem Ele nada consegue. E como se Davi estivesse dizendo:

Perguntaram-me:
Como é Deus?
Eu respondi:
– Deus é como um pastor de ovelhas.
Ele protege, guia, sustenta, cura, salva e ama Seus filhos.

Então disseram:
– Como você sabe disso?
– É simples – eu lhes disse.
E expliquei:
– Ele é o meu pastor
e supre todas as minhas necessidades.

Sou indefeso, mas Ele me protege.
Sou cego, mas Ele me guia.
Sou indigente, mas Ele me sustenta.
Sou doente, mas Ele me cura.
Estou perdido, mas Ele me salva.
Sou imperfeito, mas Ele me ama.

– Ele é tão importante assim para você?
– Sim. Não sou auto-suficiente.
Eu preciso de Deus.
Unicamente nEle encontro satisfação.
Com Ele estou completo, nada me falta.
Porém, se Deus estiver ausente da minha vida,
haverá nela um vazio que ninguém e nada poderá preencher.
Sem o Senhor como meu pastor, tudo me faltará.

Ao introduzir um sermão, o pregador de uma igreja perguntou se entre seus ouvintes havia alguém que pudesse recitar todo o salmo 23. Então, dos que se apresentaram, ele escolheu uma garotinha de quatro anos de idade aproximadamente. Ela subiu à plataforma, foi para junto do púlpito, segurou o microfone, olhou timidamente para o chão. e disse: “O Senhor é o meu pastor… e… e… eu não quero mais nada.” E logo, correndo, foi sentar-se junto a seus pais, envergonhada, porque pensava ter fracassado. Mas, o pregador a elogiou, pois ela havia dito tudo realmente. Suas palavras resumiram completamente o que há no salmo.

Deus Age Como um Pastor

Do segundo ao quarto versículo, Davi fala daquilo que Deus, como um pastor de ovelhas, faz por aqueles que O procuram, reconhecendo necessitarem dEle.

1. Leva-nos ao descanso. “Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto de águas tranqüilas; refrigera-me a alma.”

As ovelhas se recusam a repousar quando estão com fome ou sede. Só há uma maneira de fazer com que elas se eitem e repousem: dando-lhes alimento e água. É assim que Deus faz conosco. Primeiro Ele nos faz descansar, alimentando-nos e dessedentando-nos com o Pão e a Água da Vida – Jesus Cristo. NEle temos descanso. Por isso convida: “Vinde a Mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei…. Achareis descanso para vossas almas.” 5. Mat. 11:28 e 29.

Em Jesus Cristo, as ansiedades mais profundas daqueles que nEle crêem se desvanecem.

Ele é a solução
para todo complexo de inferioridade,
porque Sua morte na cruz, em nosso lugar,
nos confere um valor inestimável,
superior ao do ouro e da prata.
(Ver 1 5. Ped. 1:18 e 19.)

Ele é a solução
para o senso de culpa,
porque Sua morte na cruz, em nosso lugar,
nos assegura o perdão divino
para todo tipo e qualquer quantidade de pecados.
(Ver Isaías 53:5 e 1 S. João 2:1-2.)

Ele é a solução
para o medo da morte,
porque Sua morte na cruz, em nosso lugar,
livrou-nos da condenação morte definitiva,
tornando-nos possível a vida eterna.
(Ver 1 S. João 5:11-13.)

Ele é a solução
para a insegurança quanto salvação futura,
porque Sua perfeita obediência substitui a que se exige de nós
e, sob a condição de estarmos dispostos a obedecer,
nos garante a aprovação no juízo.
(Ver Rom. 5:10 e 19.)

Ele é a solução
para o nosso desejo de aceitação social,
porque a aceitação dEle com nosso Salvador
nos dá o direito de pertencei mos à família celestial,
como filhos de Deus.
(Ver 5. João 1:12 e 13.)

2. Conduz-nos à justiça. “Guia-me pelas veredas da justiça por amor do Seu nome.”

Há grande diferença entre descansar para recuperar a forças e o estar preguiçosamente inativo. O verdadeiro repouso tem o propósito de preparar a pessoas para realizar mais esforços. O descanso visa revivificar e revigorar. O pastor faz suas ovelhas repousarem a fim de melhor prepará-las para a desgastantes atividades do caminho.

Através de Jesus Cristo, Deus nos leva para além do descanso. (Até que nós O encontremos, estamos cansados de vaguear pelas sendas do pecado ou extenuados de tanto tentarmos, inutilmente, ser bons o suficiente para merecermos a salvação. Mas, em nosso encontro com Ele, somos perdoados, e Deus nos dá a certeza de que a perfeita obediência de Cristo é aceita em lugar da nossa e que, portanto, se estamos dispostos a obedecer a Deus, o Céu será o noss lar eterno. Assim somos estimulados a tentar obedecer perfeitamente à lei divina como um preparo para a vida futura quando então o faremos com absoluta perfeição; e não com o objetivo de barganharmos com Deus.

A fonte de todas essas dádivas é o caráter amoroso de nosso Pai celestial. Ele nos dá a vida eterna não porque a merecemos, mas “por amor do Seu nome”. Salva-nos não porque somos bons, mas porque Ele é bom. “Bom e reto é o Senhor, por isso aponta o caminho aos pecadores. Guia os humildes na justiça, e ensina aos mansos o Seu caminho.” Sal. 25:8 e 9.

3. Encoraja-nos e nos consola. “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque Tu estás comigo; a Tua vara e o Teu cajado me consolam.”

Fiéis e infiéis, todos passamos pelo “vale da sombra da morte”, que representa as dificuldades presentes na vida das pessoas. Existem, porém, algumas distinções.

As ovelhas do Senhor atravessam o vale corajosamente. Elas não temem perigo algum, nem mesmo a morte, porque sabem não estar sozinhas ao cruzá-lo. Aquele que nos leva ao descanso e nos guia à justiça, não nos abandona na hora da provação. E a certeza de Sua companhia nos consola.

O rei Davi sempre se lembrava das noites escuras, quando, em sua juventude, ao conduzir seu rebanho de volta para o curral, passando por estreitos espaços existentes entre as rochas, confirmava sua companhia às ovelhas, tocando-as amavelmente com sua vara ou falando-lhes, a fim de que não se sentissem atemorizadas. Do mesmo modo, pensava ele, quando estamos em dificuldade, Deus sempre nos fornece evidências de Sua presença visível ao nosso lado. Tal fato visa confortar-nos e estimular-nos a prosseguir.

Essa passagem pelo vale da sombra da morte nos é benéfica. Talvez não compreendamos, agora, por que determinadas aflições nos sobrevêm, mas a Bíblia diz: “A correção de Deus é sempre boa e para o nosso maior bem, a fim de podermos participar da santidade dEle. Não é nada agradável ser afligido. na hora em que está acontecendo – dói mesmo! Mas depois podemos ver o resultado: um crescimento tranqüilo em virtude e caráter.” (Heb. 12:10 e 11A Bíblia Viva.)

Deus Age Como um Hospedeiro

Davi, que por muito tempo perambulou fugitivo de um lugar para outro e dependente da hospitalidade de uns poucos simpatizantes, nos dois últimos versículos do salmo reforçou seu testemunho pessoal acerca de Deus, comparando-O a um bondoso hospedeiro.

1. Fortalece-nos e nos defende. “Preparas-me uma mesa na presença de meus adversários.”

Certamente, em várias ocasiões, enquanto Davi estava sendo alimentado e cuidado em casa de amigos, o ímpio rei Saul o procurava perto dali para o matar. Contudo, nada lhe podia fazer. Porque os amigos de Davi o ocultavam e até lutariam em defesa dele, caso fosse necessário. Isso deixava Saul furioso.

Quando vamos a Deus, o mesmo acontece conosco. Encontramos refúgio, e Satanás, nosso grande inimigo, não nos pode fazer nenhum mal. O Senhor nos fortalece, por meio de Jesus Cristo, e nos defende dos ataques do diabo.

2. Capacita-nos. “Unges-me a cabeça com óleo.”

A unção era uma honra concedida aos convidados especiais num banquete oriental, sendo também utilizada nas cerimônias de ordenação sacerdotal e profética, e também nas coroações reais. Consistia no derramar óleo sobre a cabeça.

Como o óleo ou azeite é na Biblia um dos símbolos usados para representar o Espírito Santo, acreditamos que Davi estava se referindo à capacitação espiritual que nos é dada, através da atuação desse Agente divino em nossa mente, para deixarmos a escravizante prática de atos contrários à vontade de Deus e passarmos a viver de acordo com ela.

3. Abençoa-nos abundantemente. “O meu cálice transborda.” Aqui Davi fala da medida de gozo, alegria, satisfação e felicidade provenientes do Senhor. Deus nos concede bênçãos em tão grande quantidade que nosso cálice se enche e transborda!

4. Trata-nos bondosamente. “Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias de minha vida.”

Depois de nos dar refúgio e tratar como se fôssemos hóspedes ilustres ou pessoas escolhidas para um trabalho especial, abençoando-nos abundantemente, o Senhor ordena que duas de Suas servas – Bondade e Misericórdia – nos acompanhem e sirvam durante toda nossa vida.

A bondade divina sempre suprirá nossas necessidades e Sua misericórdia sempre apagará nossas transgressões e falhas.

Não é somente para o começo da vida cristã que precisamos ou temos à nossa disposição a misericórdia de Deus. Inúmeras vezes, depois do dia inesquecível em que nos decidimos por Cristo, podemos e necessitamos utilizá-la.

Foi a cristãos que o apóstolo João escreveu: “Fiquem longe do pecado. Mas se vocês pecarem, existe Alguém para rogar por vocês diante do Pai. O nome dEle é Jesus Cristo, Aquele que é tudo quanto é bom e que agrada completamente a Deus. Ele foi quem levou sobre Si a ira de Deus contra os nossos pecados, e nos trouxe à comunhão com Deus; e Ele é o perdão para os nossos pecados, e não somente os nossos, mas os do mundo inteiro.” (1 S. João 2:1 e 2 – A Bíblia Viva.)

Conclusão

Embora conhecesse suas imperfeições, Davi encerrou seu cântico, afirmando com convicção: “Habitarei na casa do Senhor para sempre.

Estas palavras nos indicam claramente que a profunda compreensão do caráter amoroso de Deus revelada pelo salmista nos versos anteriores, proporcionou-lhe à mente a completa certeza de sua salvação futura. Desviando os olhos de seu imperfeito caráter e fixando-os no amoroso caráter divino, Davi não podia duvidar de que viveria eternamente. E Deus quer que todos nós tenhamos idêntica segurança.

Robson Ramos – Este artigo foi publicado pela Revista Adventista em setembro de 85. Neste ano, estava concluindo o curso teológico no IAE.

dezembro 15, 2015

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