Salmo 139: Meu Deus não cabe no Céu, mas vive no meu coração

Neste salmo vemos que Deus tem um plano para nossa vida e, apesar de tudo, nos ama e está sempre ao nosso lado para nos guiar e suster.

O Salmo 139 merecidamente tem sido elogiado desde que Davi o compôs. O Rabi Aben Ezra considerava-o “a coroa de todos os salmos”. M’Caw disse: “Este é um dos mais excelentes poemas do Saltério, relevante teológica e psicologicamente.” “Para a formulação de conceitos sobre a natureza divina, a onisciência e a onipresença de Deus, este salmo salienta-se como a mais esplêndida gema do Saltério”, escreve Oesterley. E McCullough declara:

Este poema não é apenas um dos principais esplendores do Livro dos Salmos. Em seu discemimento religioso e vivacidade devocional, ele é proeminente entre as mais destacadas passagens de todo o Antigo Testamento.1

O Espírito Santo inspirou o salmista à composição deste cântico, que é uma oração, embora possua algumas das características de um hino de fé e possa também ser classificado como tal. Nele, com suas palavras e de acordo com a luz que até então recebera, Davi expressa confiança pessoal na onisciência, onipresença, onipotência e amorosa soberania do Criador, e demonstra estar ansioso por ser considerado digno da amizade divina e receber auxílio de Deus.

O salmo pode ser dividido em seis partes, sub-tópicos que sumarizam o conteúdo de cada uma delas:

  1. Deus Sabe Tudo a Meu Respeito.

O salmista fala da onisciência de Deus não meramente como uma doutrina, mas como algo que verificou ser verdadeiro em sua própria vida. Sabia o que fora dito a Samuel, quando este pensou ser Eliabe o escolhido para ocupar o trono de Israel em lugar de Saul: “O Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração.” 1 Samuel 16:7. Por essa razão, orou: “Senhor, Tu me sondas e me conheces.” Verso 1.

Deus nos avalia e sabe o que somos. Conhece nossas virtudes e deficiências, nossos pontos fortes e nossos pontos fracos. Conhece integralmente o nosso caráter. A Bíblia diz que Ele “esquadrinha” a mente de todos nós e é o único que sabe realmente o que há nela. (Jeremias 17:9 e 10.) Nada Lhe está oculto. “Todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos dAquele a quem temos de prestar contas”, escreveu o apóstolo. Hebreus 4:13.

Portanto, Davi não estava exagerando, ao dizer: “Sabes quando me assento e quando me levanto; de longe penetras os meus pensamentos. Esquadrinhas o meu andar e o meu deitar, e conheces todos os meus caminhos.” Verso 3. Toda nossa vida é conhecida por Deus. Ele sabe o que acontece em cada momento dela, quando estamos em repouso ou em atividade. Sabe o que fazemos, como fazemos, onde fazemos,quando fazemos e por que fazemos. Lê nossos pensamentos e conhece nossas motivações, desejos e carências. Jesus disse: “Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que Lho peçais.” Mateus 6:8.

“Ainda a palavra me não chegou à língua, e Tu, Senhor, já a conheces toda”, acrescenta o salmista. Verso 4. Deus sabe também não apenas o que falamos, mas o que dizemos e por que o fazemos. Conhece o verdadeiro significado de nossas palavras e as razões que nos levaram a proferi-las de tal maneira. Sabe realmente tudo a nosso respeito. “Até os cabelos todos da cabeça estão contados!” Mateus 10:30. Conhece-nos mais do que nós mesmos. Contudo, faz-nos objeto de Seu cuidado e proteção, como disse Davi: “Tu me cercas por trás e por diante, e sobre mim pões a Tua mão.” Verso 5.

A semelhança do que fez aos israelitas, quando os tirou do Egito2, Deus nos cerca “por trás” para que o inimigo não nos ataque traiçoeiramente e destrua, e “por diante” para nos guiar, a fim de que não nos desviemos do caminho que conduz à vida. Como um menino que põe a mão sobre a concavidade da outra para proteger e segurar algum inseto, o Senhor coloca Sua poderosa mão sobre nós e diz: “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, eternamente, e ninguém as arrebatará da Minha mão.” João 10:28.

Apesar de tudo o que sabe a nosso respeito, Deus nos ama. Isto nos é incompreensível. Não conseguimos descobrir o porquê, e com o salmista cada um de nós pode dizer: “Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim: é sobremodo elevado, não o posso atingir.” Verso 6.

  1. Deus Sempre Está Perto de Mim.

Convicto de que Aquele que sabe tudo a seu respeito é também seu companheiro onde quer que estiver, o salmista agora diz: “Para onde me ausentarei do Teu Espírito? Para onde fugirei da Tua face?” Verso 7. Isto não significa que Davi desejava fugir do Espírito divino. Ele está falando de sua confiança na onipresença de Deus. E é importante lembrar que a crença na onipresença não é panteísmo. “Por onipresença entendemos que Deus não está excluído de qualquer coisa por um lado, ou incluído em qualquer coisa por outro.”3

Dificilmente poderíamos encontrar uma descrição mais positiva da onipresença do que esta: “Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também; se tomo as asas da alvorada ou me detenho nos confins dos mares: ainda lá me haverá de guiar a Tua mão e a Tua destra me susterá.” Versos 8 a 10. Deus está sempre ao nosso lado para nos guiar e suster!

A doutrina da onipresença deve inspirar tranqüilidade e segurança, não temor e apreensão. Não pense que Deus fica perto de você para o(a) vigiar e, tendo oportunidade, acusá-lo(a), condená-lo(a) e puni-lo(a) por seus erros. O propósito divino é sempre: proteger, auxiliar, consolar, encorajar, orientar e, sobretudo, perdoar e fortalecer você.

Nem mesmo a densa escuridão, símbolo da mais desesperadora condição espiritual, pode nos excluir da amorosa companhia de nosso Deus. “Se eu digo: As trevas, com efeito, me encobrirão, e a luz ao redor de mim se fará noite, até as próprias trevas não te serão escuras: as trevas e a luz são a mesma coisa.” Versos 11 e 12. Ellen G. White escreveu: “Nunca estamos sós. Temos um Companheiro, quer O escolhamos ou não. Lembrem-se… que onde estiverem, não importa o que façam, Deus está ali…. Ele está com vocês na mais profunda escuridão e solidão.”4 Portanto, cada um de nós, como o salmista e o apóstolo, pode estar “bem certo de que nem morte, nem vida, nem anjos, nem principados, nem coisas do presente, nem do porvir, nem poderes, nem altura, nem profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor”. Romanos 8:38 e 39.

  1. Deus Pode Fazer o Que me é Impossível.

A onipotência divina é também expressa por Davi de maneira pessoal. O salmista fala de Deus como seu todo-poderoso Criador: “Pois Tu formastes o meu interior; Tu me tecestes no seio de minha mãe. Graças Te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formastes; as Tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem; os meus ossos não Te foram encobertos, quando no oculto fui formado, e entretecido como nas profundezas da terra.” Versos 13 a 15.

O grande avanço da ciência médica tem revelado inúmeras maravilhas do organismo humano e, assim, impedido que a expressão “por modo assombrosamente maravilhoso me formastes” seja negada ou superada pelo homem moderno, apesar de todos os esforços evolucionistas. Comprovadamente, o corpo humano é o mais complexo e intrincadamente planejado sistema no Universo. Portanto, torna-se absurda e inaceitável a idéia de que um tal organismo poderia desenvolver-se vagarosamente, ao longo de eras, por casuais processos de evolução.

As palavras do salmista podem ser cientificamente inadequadas para descrever o processo da formação e desenvolvimento do embrião, mas o Salmo 139 é um poema religioso, não um tratado científico. E mesmo assim nos leva aonde muitos livros de Ciência não nos conduzem, ao sentimento de reverente admiração pelo poder divino, o que, no aspecto espiritual, é de muito maior benefício que o conhecimento científico.

A contemplação das admiráveis obras de Deus nos dá base para confiar incondicionalmente em nosso Pai celestial e, por isso, permanecer otimistas mesmo nas situações mais difíceis.

Para Aquele que, por Sua Palavra, fez todas as coisas, nada é impossível. “Para Deus tudo é possível.” “Os impossíveis dos homens são possíveis para Deus.” Ele “é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos.” São Mateus 19:26, São Lucas 18:27 e Efésios 3:20.

  1. Deus Tem um Plano Para Minha Vida.

“Os Teus olhos me viram a substância ainda informe, e no Teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda. “Verso 16. Este é um versículo difícil de traduzir e interpretar, como se nota na variedade de versões:

“Teus olhos viam o meu embrião. No Teu livro estão todos inscritos os dias que foram fixados e cada um deles nele figura.” – A Biblia de Jerusalém. 

“Os Teus olhos viram os meus rudimentos, e no Teu livro eles todos foram escritos; com tambémos dias em que se deviam formar; quando não havia nenhum deles.” – Versão Trinitária. 

“Os Teus olhos me viram quando era informe, e no Teu livro todos serão escritos; os dias serão formados, e ninguém neles.” – Figueiredo. 

“Os Teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no Teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia.” – Almeida Antigq.

Alguns crêem que neste verso Davi está-se referindo à presciência divina, outros discordam. A doutrina da presciência é um assunto muito discutido em nossos dias, porque em nossa maneira de pensar é muito difícil conciliar a presciência divina e o livre-arbítrio humano. Mas os escritores bíblicos não sentiam tal dificuldade. Para eles, era suficiente saber que Deus conhece o princípio sem predeterminar o fim. Nós, porém, antes de acreditar, queremos entender “como” e isto nem sempre é possível.

Contudo, o homem do século XX também encontra conforto na verdade de que nada surpreende Deus. É bom sabermos que Ele conhece o futuro para nós desconhecido e nos pode guiar através de Seus caminhos, se nos submetermos à Sua liderança.

Deus não nos força a cumprir Sua vontade. Mas Ele, que programou cada detalhe de nosso desenvolvimento no interior do ventre materno, estabeleceu também um plano para nossa vida posterior, visando nossa salvação. “Assim como o arquiteto desenha a planta e traça as especificações para a construção de uma residência, Deus também planeja o que há de ser cada indivíduo, mesmo antes que este veja a luz do dia. A cada um compete, porém, decidir se seguirá o desenho divino ou não.”5

  1. Quero Ser Amigo de Deus e Inimigo do Pecado.

Ciente da preocupação e interesse de Deus por sua pessoa, Davi expressa seu desejo de corresponder à amizade divina, em palavras que parecem significar: “Eu gosto do que Tu gostas e odeio o que Tu odeias. Quero ser Teu amigo e inimigo do pecado.” Disse ele:

“Que preciosos para mim, Senhor, são os Teus pensamentos! E como é grande a soma deles! Se os contasse, excedem os grãos de areia: contaria, contaria, sem jamais chegar ao fim. Tomara, óDeus, desses cabo do perverso; apartai-vos, pois, de mim, homens de sangue. Eles se rebelam insidiosamente contra Ti, e como Teus inimigos falam malícia. Não aborreço eu, Senhor, os que Te aborrecem? e não abomino os que contra Ti se levantam? Aborreço-os com ódio consumado: para mim são inimigos de fato. “Versos 17 a 22.

Deus, porém, odeia o pecado, não o pecador. Por isso, penso que Davi não foi feliz ao demonstrar seu ódio contra o pecado, referindo-se ao pecador. E para que esta afirmação não o(a) escandalize, leia a seguinte declaração de Ellen G. White acerca da inspiração dos escritores bíblicos:

“A Bíblia foi escrita por homens inspirados, mas não é a maneira de pensar e exprimir-se de Deus. Esta é a da humanidade. Deus, como escritor, não Se acha representado. Os homens dirão que tal expressão não éprópria de Deus. Ele, porém, não Se pôs à prova na Bíblia em palavras, em lógica, em retórica. Os escritores da Bíblia foram os instrumentos de Deus, não Sua pena.”6

Se Deus fosse atender literalmente a esse pedido, até o salmista deveria ser destruído, pois também era pecador. Aliás, todos somos pecadores. “Não há justo, nem sequer um.” Romanos 3:10. “Não há homem justo sobre a terra, que faça o bem e que não peque.” Eclesiastes 7:20. “Todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia.” Isaias 64:6.

Felizmente, Deus não tem “prazer na morte de ninguém”. Ezequiel 18:32. “Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho e viva.” Ezequiel 33:11. Deus é longânimo para com os pecadores, Ele não quer “que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento”. II Pedro 3:9. “Deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade.” II Timóteo 2:4.

  1. Conto Com o Auxílio Divino.

Davi conclui sua oração, fazendo um pedido: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração: prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno.”Verso 23 e 24.

Alguns compreendem erroneamente essas palavras do salmista, vendo nelas a expressão de um sentimento de justiça-própria, semelhante ao do fariseu que agradeceu a Deus por não ser como os demais homens. Mas, na verdade, deve-se ver nesse pedido a súplica sincera de uma alma que, ciente de suas deficiências espirituais, pede o auxílio divino. Como um enfermo desesperado pela dor, Davi apresenta seu caso a Deus, dizendo em outras palavras: “Estou sofrendo muito. Examina-me, Senhor. Descobre qual é o meu problema. E ajuda-me. Quero ser feliz, quero viver eternamente.”

Buscar ajuda – perdão, purificação e orientação – é a reação natural de alguém que obtém um vislumbre pessoal do amor de Deus, como Davi demonstra nesse salmo. Após meditar sobre a onisciência de Deus, experimentar Sua onipresença e maravilhar-se ante Sua onipotência, o salmista não poderia agir de outra forma, senão expressando-Lhe o desejo de ser Seu amigo e contar com Seu auxílio.

Conclusão

Esta é, portanto, em resumo, a oração de Davi no Salmo 139:

“Senhor, Tu sabes tudo a meu respeito, mesmo assim estás sempre perto de mim. Tu podes fazer o que me é impossível e tens um plano para minha vida. Por isso, quero ser Teu amigo e inimigo do pecado. Ajuda-me. Amém.” Que esta seja também a oração de cada um de nós.

Referências:

  1. Citados por W. T. Purkiser, em Beacon Bible Commentary, (Beacon Hili Preas of Kansas City, 1967), vol. 3, pág. 426.
  2. Ver Êxodo 13:21, 22 e 14:19, 20.
  3. H. Orton Wiley, Christian Theology, (Beacon 11111 Press of Kansas City, 1940), vol. 1, pág. 345.
  4. SDABC, vol. 3, pág. 1.153. (Grifos acrescentados.)
  5. Comentário do SDABC sobre o verso 16.
  6. Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 21.
dezembro 15, 2015

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